Artigo originalmente publicado no site da No Gods No Masters Network, um coletivo especializado em web hospedagem de infraestruturas anarquistas, fundado há mais de 25 anos.

Governos dos EUA Sanciona a Autistici/Inventati – Uma Perigosa Escalada Contra Infraestruturas Autônomas na Web
Em 26 de Agosto de 2026, o governo dos Estados Unidos tomou uma medida extraordinária contra a Autisti/Inventati (A/I), um coletivo de tecnologia italiano que tem oferecido hospedagem digital e infraestruturas de comunicação independentes por mais de 25 anos.
O governo dos EUA enquadrou a A/I como uma Classificação Especial de Terrorismo Global (SDGT) sob a Ordem Executiva 13224, alegando que o coletivo oferece infraestrutura tecnológica e serviços para grupos violentos de extrema esquerda e organizações designadas. O departamento de tesouro dos EUA também anunciou sanções econômicas, dizendo que a ação é parte de uma campanha mais ampla para interromper a infraestrutura que permite que estes grupos operem e se comuniquem.
Isso deveria fazer soar o alerta para qualquer um envolvido em hospedagem independente na web, mídias alternativas, infraestruturas de privacidade, publicações políticas, ou comunicação livre. A/I não é uma organização clandestina armada, escondida nas montanhas – é um provedor de hospedagem na web e comunicações similar ao NGNM Web Hosting.
A/I é uma peça importante da infraestrutura da internet
A/I foi fundada na Itália em 2001 por pessoas envolvidas em tecnologia, privacidade, direitos digitais e ativismo. É mantida por voluntários e oferece seus serviços sem taxas comerciais, e a escala é significante.
De acordo com o FAQ da A/I e números citados pelo próprio Departamento de Estado dos EUA, sua infraestrutura hospeda aproximadamente:
16,000 endereços de email- 1,500 websites
- 5,500 listas de e-mails
- 10,000 blogs
Isso não é uma célula terrorista sancionada por realizar um ataque. É uma infraestrutura de comunicação bem estabelecida usada por uma grande comunidade política. E é precisamente por isso que o caso é tão perturbador.
O Governo dos EUA está explicitamente atacando infraestruturas tecnológicas
O Departamento do Tesouro descreve a A/I como oferecendo hospedagem de websites, e-mail criptografado e a infraestrutura por trás da plataforma NoBlogs. Ele diz que a A/I oferece esses serviços para organizações de esquerda vetadas, incluindo organizações que os EUA classificaram como terroristas.
O Departamento de Estado vai mais além, caracterizando a A/I como um nodo tecnológico que permite que redes radicais se comuniquem, publiquem material e se organizem. Ele especificamente aponta para esses 16,000 endereços de e-mail, 1,500 websites, 5,500 listas e 10,000 blogs como parte do seu caso.
O Departamento do Tesouro diz que seu objetivo é interromper a infraestrutura que permite que determinados grupos operem para além de fronteiras. Essa palavra importa. Não estamos mais falando apenas sobre processar alguém acusado de plantar um dispositivo incendiário ou cometer um ataque. A camada das comunicações em si tornou-se o alvo.
Pela primeira vez na história, a lógica de oferecer suporte material ao terrorismo está sendo aplicada a infraestrutura tecnológica. O “terrorista” não é mais somente aqueles que realizam um ato de terrorismo, mas também aqueles que oferecem infraestruturas de servidores.
Obviamente há uma diferença legal entre oferecer hospedagem genericamente e intencionalmente auxiliar em atividades criminosas. Mas estender sanções para os voluntários de um coletivo de comunicação, pois terceiros usaram seus serviços representa uma expansão enorme da interferência do governo na infraestrutura da internet.
Um web host não é autor de cada uma dos websites que hospeda.
Um administrador de e-mail não é autor de cada mensagem que passa por seu servidor de e-mails.
Oferecer uma lista de e-mails não é participar de cada organização que usa a lista.
Um serviço de privacidade não se torna responsável por tudo que alguém faz enquanto está protegendo sua identidade.
Estas são distinções fundamentais para o funcionamento da Internet.
O que o governo de alega
O Departamento do Tesouro classificou a A/I por supostamente ter auxiliado materialmente ou oferecido bens ou serviços em apoio a um ato de terrorismo.
O governo ressaltou que a A/I não opera como um fornecedor comercial tradicional. A/I abertamente diz que pedidos de serviço são manualmente revisados e que fornecem infraestrutura para pessoas e projetos que compartilham de seus princípios anticapitalistas, anti fascistas, anti racistas, anti sexistas e anti militaristas. Para o governo, isto é parte da teoria do domínio do fato e intenção.
Mas mesmo aceitando que a A/I escolhe para quem oferecem serviços, ainda há uma enorme diferença entre concordar politicamente com com alguém e participar conscientemente em, ou, auxiliar materialmente um ato terrorista.
A Conexão Abolition Media
Uma das partes mais interessantes do caso do governo diz respeito a um veículo de comunicação não nomeado hospedado na infraestrutura da A/I. O Departamento de Estado não o nomeou publicamente, mas o Jerusalem Post o identificou como sendo o Abolition Media.
A identificação foi possível pois a descrição do governo se aproximava muito com a própria descrição pública do Abolition Media, enquanto o Abolition Media está publicamente identificado como hospedado pela Autistici/Inventati.
Investigadores também examinaram uma reivindicação de responsabilidade por uma ataque incendiário publicado pelo veículo de comunicação que supostamente continha detalhes ainda não revelados ao público. Mais tarde, um depoimento apresentado ao Comitê Judiciário do Senado dos EUA em Outubro de 2025 explicitamente discutiu o Abolition Media, o NoBlogs e a Autistici/Inventati e argumentou que as relações levantavam suspeitas de apoio material.
Mas novamente: um post aparecendo em um servidor não é o mesmo que evidência de que as pessoas mantendo o servidor participaram do planejamento do crime. Este limite é exatamente o que deveria preocupar outros provedores dos mesmos serviços.
No caso do NGNM Web Hosting, este é um dos motivos para não apresentarmos uma lista dos sites que estamos hospedando, seguindo as decisões do nosso conselho.
Sem juri. Sem Julgamento. Primeiro, Sanções.
Talvez a característica mais perturbadora de todo este caso é que nada disso exigiu que os promotores primeiro condenassem a A/I de qualquer crime. A/I não foi acusada, posta diante de um júri e declarada culpada pelo crime de terrorismo antes de se aplicarem essas consequências.
Invés, o setor executivo usou da autoridade de sanções. A classificação imediatamente colocou a A/I nas sanções da OFAC e congelou todos os bens sujeitos à jurisdição dos EUA.
E as consequências vão consideravelmente além dos Estados Unidos. O Tesouro alertou que pessoas estrangeiras também podem encarar exposição civil e criminal ligadas às sanções, e que bancos estrangeiros participando de transações envolvendo entidades citadas correm o risco de sanções secundárias, incluindo restrições de acesso ao sistema financeiro dos EUA.
Isso muda o cálculo de risco para praticamente qualquer banco, processador de pagamentos ou prestador de serviços comerciais no mundo. Seus departamentos de risco terão de decidir se continuam a fornecer seus serviços a este cliente ou arriscam perder acesso aos mercados e bancos dos EUA. Para a maioria dos negócios, a resposta será óbvia. A/I pode apelar sua classificação e peticionar sua remoção da OFAC. Mas isso significa que a punição começa primeiro e a oportunidade de combatê-la vem só depois.
Para um coletivo mantido por voluntários que depende de provedores de infraestrutura e doações, isso pode ser devastador.
De acordo com Beniamino Irdi:
“O congelamento de bens é provavelmente a parte menos significativa da medida: é difícil imaginar que uma pequena associação italiana tenha bens substanciais nos Estados Unidos. O efeito real vem na verdade, através do de-risking. Uma classificação leva os bancos, sistemas de pagamento, provedores de hospedagem e de conectividade a cortarem laços preventivamente. Uma entidade pode, portanto, ser efetivamente expulsa do mercado de serviços sem qualquer decisão das cortes jamais ter sido realizada na Itália, e potencialmente sem uma investigação criminal sequer ser aberta. Em outras palavras, o poder coercitivo real dos Estado Unidos está em progressivamente tornar impossível que uma entidade classificada acesse bancos, e provedores de serviços e hospedagem.”
O domínio parece já ter se tornado dano colateral
Nós já vimos quão rápido essa pressão pode se propagar pela infraestrutura.
Em 28 de Agosto. la Republica reportou que a Autistici.org parou de funcionar mesmo apesar do servidor físico da A/I continuar online. Nós também vimos e-mails enviados dos nossos próprios servidores para endereços eletrônicos na A/I voltarem.
Um membro da A/I contou ao jornal que aproximadamente 20.000 pessoas usando o e-mail autistici.org foram afetadas. O coletivo disse que seu provedor de domínio principal era europeu, mas suspeitava que a interrupção tenha acontecido ainda mais à cima, pois o registro .org é principalmente operado pela Public Interest Registry, que tem sede nos EUA.
Mas o episódio ilustra o problema perfeitamente: você pode ser dono dos servidores, você pode rodá-lo com Linux e no seu próprio software, você pode distribuir suas máquinas geograficamente, você pode evitar AWS, Google Cloud e as empresas gigantes de hospedagem comercial… Mas o domínio talvez ainda dependa de um registro controlado pelos EUA e sua processador de pagamentos tenha operações estadunidenses. Seus fornecedores podem decidir que te manter como cliente não vale o risco.
Ter seus próprios servidores é importante. Não é a mesma coisa que ter cada camada da Internet. O que é próximo do impossível. O que aconteceu com a A/I pode acontecer com qualquer outro web host autônomo.
A A/I passou décadas se preparando exatamente para isso.
A A/I já havia experienciado apreensão de suas infraestruturas. Em 2004, a polícia italiana, investigando uma conta de e-mail, foi até o provedor comercial de um dos servidores da A/I. O provedor permitiu que a polícia acessasse a máquina, permitindo que os investigadores copiassem os dados do servidor. O incidente se tornou público no ano seguinte e teve um papel importante no desenvolvimento do modelo R* de infraestrutura distribuída da A/I.
O design R* assume explicitamente que o controle físico de um servidor pode ser perdido e portanto distribui os sistemas, para que perder um nódulo não derrube automaticamente toda rede.
Mais de 20 anos depois, a vulnerabilidade subiu de camada.
O servidor pode sobreviver. O domínio, contas de banco, e provedores talvez não.
A lição deveria ser levada a sério por todos web hosts independentes.
Esta infraestrutura é mantida quase totalmente por voluntários
Outras estatísticas merecem atenção.
Os custos da infraestrutura da A/I, publicado anualmente, atualmente é estipulado em aproximadamente €20,300:
€10,000 por conectividade;- €1,000 em gastos bancários;
- €3,400 para assistência física e legal;
- €1,500 para administração e registro de domínio;
- €4,400 para hardware, substituição de servidores, emergências e manutenção.
As pessoas atualmente administrando toda essa infraestrutura são voluntárias não remuneradas. Este é um exemplo extraordinário de infraestrutura de internet não-comercial.
Não podemos ignorar quando o FBI investiga nossas infraestruturas
Este desdobramento nos parece especialmente perturbador pois a NGNM recentemente revelou uma investigação do FBI envolvendo a AnarchistFederation.net, um agregador de RSS hospedado em nossa infraestrutura.
Esta investigação chegou ao júri federal nos EUA. Uma intimação foi direcionada a empresas terceiras incluindo a Google e buscou informações de inscrição, IP, registro e de pagamentos.
Nós não temos evidências se a investigação do FBI tem qualquer ligação com a classificação da A/I. Mas também não podemos fingir que estes últimos desdobramentos são irrelevantes. Recentemente, nós aprendemos que agentes federais têm investigado a infraestrutura técnica por trás das plataformas de publicações anarquistas. Agora, os Estados Unidos publicamente classificou outro coletivo estrangeiro de comunicação como sendo terrorista e explicitamente declarou a própria infraestrutura digital como parte do campo de batalha.
Uns poucos anos atrás, a ideia de que o governo dos EUA poderia seriamente ter como alvo um web host estrangeiro por conta das atividades políticas acontecendo em sua infraestrutura soaria extrema. Não é mais o caso.
O que Defendemos
Nós não estamos apoiando terrorismo. Nós não estamos apoiando violência. Não estamos apoiando cada organização ou cada artigo que já passou pela infraestrutura da A/I. Estamos defendendo um princípio muito mais simples: provedores de infraestrutura não devem automaticamente se tornarem responsáveis pela fala e a conduta das pessoas utilizando esta sua infraestrutura.
Privacidade não é terrorismo.
Criptografia não é terrorismo.
Manter um servidor de e-mails não é terrorismo.
Hospedar blogs não é terrorismo.
Manter uma lista de e-mails não é terrorismo.
Operar infraestruturas para movimentos políticos não deveria apagar a distinção entre provedor de serviços e conteúdo gerado por usuários.
Estes acontecimentos recentes deveriam preocupar muito mais pessoas que apenas os anarquistas. O que acontece com a Austistici/Inventati pode se tornar um perigoso precedente para o que governos acreditam que podem fazer contra infraestruturas políticas independentes em todo lugar.
Todo web host independente deveria estar atento.