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Lições dos protestos estudantis na Sérvia

Belgrado, Autokomanda, Janeiro de 2025 (foto M. Moratti)

Uma análise dos protestos acontecendo na Sérvia, da habilidade das estudantes em organizar manifestações, as diferenças entre os protestos dos anos 90 e 2000, e os possíveis riscos da falta de estratégia e de um plano de longo prazo.

Publicado originalmente em Balcanicauso.org em 05.02.2025, por Gresa Hasa

Após o colapso da cobertura de uma estação de trens, que fez 15 vítimas fatais, em Novi Sad, na Sérvia, estudantes universitários em Belgrado e por todo o país, apoiados pela sociedade sérvia como um todo, lançaram um movimento nacional e têm protestado regularmente nos últimos três meses. Acusações de corrupção com relação a reparos na estação de trem, que foi realizado entre 2021 e 2024 por um consórcio composto pela China Railway International Company Ltd (CRIC) e China Comunications Consortium Company Ltd (CCCC), surgiram imediatamente após a tragédia. Os manifestantes exigem não somente respostas mas também responsabilização, o que levou a renúncia do Primeiro Ministro da Sérvia, Milos Vucevic, e o prefeito de Novi Sad, Milan Duric.

As manifestações ganharam reconhecimento internacional, recebendo cobertura em toda mídia corporativa. No entanto, a União Europeia (EU) não apenas se recusou a reconhecer a realidade local como também continuou sua política externa estabilitocrática na região, continuando a apoiar o regime de Aleksandar Vucic, mesmo enquanto ele enfrenta uma escala de resistência sem precedentes.

Até então, estudantes sérvios têm demonstrado excepcional maturidade e inteligência em organização logística, e manutenção do ânimo, mantendo a sociedade unida, e desafiando o regime. Mas como eles estão fazendo isso?

Primeiramente, o local das manifestações é escolhido baseado em sua importância estratégica, não em simbolismo político; ou pior ainda, de forma aleatória. Por exemplo, ocupando o entroncamento Autokamanda em 27 de Janeiro, uma rodovia chave em Belgrado que conecta a capital tanto com o interior da cidade quanto com o resto do país, se mostrou uma tática inteligente. A disrupção de infraestruturas vitais obriga que mais pessoas prestem atenção e participem dos protestos. O mesmo pode ser dito sobre a ocupação de três pontes por 24 horas, sobre o Rio Danúbio em Novi Sad, que aconteceu entre 1 e 2 de Fevereiro, marcando três meses da tragédia. Estas ações demonstram um entendimento de que protestos efetivos não são apenas sobre visibilidade mas sobre aplicar pressão sobre o sistema.

Segundo, manifestantes estão mantendo o movimento descentralizado e sem líderes. Isso deve ser visto como um movimento estratégico e defensivo. No regime semi-autoritário da Sérvia isso é extremamente importante para evitar cooptação e pressões vindas de cima para baixo. Um movimento sem líder dificulta que o regime identifique organizadores chave, para os intimidar ou corrompê-los. Além disso, isso preserva o movimento de potenciais fragmentações e crises internas. Por outro lado, encoraja a ampla participação, já que ajuda a reunir diversas partes da sociedade, incluindo aqueles que normalmente estariam em desacordo com certas ideologias ou que olhariam as organizações hierárquicas com suspeita em um contexto onde a maioria dos partidos de oposição são corruptas ou desunidas.

Terceiro, o movimento estudantil merece reconhecimento por sua democrática organização interna. Os estudantes estão se auto-organizando através de plenárias onde todos podem expressar suas opiniões, mas decisões são tomadas por uma maioria, com base nas propostas com os melhores argumentos. Isso cria um senso de justiça e legitimidade, assegurando que decisões refletem a vontade coletiva mais do que a influência de umas poucas vozes mais destacadas.

Além disso, é interessante perceber que não existem declarações ou símbolos divisivos nas manifestações. É importante reconhecer que a Sérvia é uma sociedade profundamente nacionalista com uma história moldada pela dissolução violenta da Iugoslávia, marcada por sentimentos extremos de ultranacionalismo e tensões étnicas, que persistem até hoje, inclusive entre a juventude e estudantes. Entretanto, uns poucos símbolos nacionalistas ou bandeiras foram avistadas aqui e ali e não são representativos dos protestos como um todo. Estes são casos isolados que não refletem os princípios do movimento.

Em seu lugar, estudantes são geralmente vistos levantando as bandeiras de suas faculdades, juntas da bandeira da Sérvia ou outros tipos de bandeiras, como a bandeira da Jamaica ou a bandeira da Ferrari; símbolos apropriados das manifestações estudantis dos anos 90 e 2000, quando estas bandeiras eram usadas para debochar de acusações do regime de que seriam “agente estrangeiros”. Uma tática que Vučić também tem empregado, buscando retratar os protestos como orquestrados no exterior.

O movimento estudantil tem mantido o tom estritamente neutro e focado em questões como corrupção, cooptação estatal, ausência de liberdade da mídia, estado de direito, e democracia. Por mais que seja impossível policiar cada participante individualmente, os organizadores têm conseguido ter domínio da retórica. Além disso, eles estão cientes que qualquer uso de símbolos nacionalistas e divisivos dariam uma vantagem a Vučić, os obrigando a jogar num campo que ele domina. Isso diminuiria a credibilidade do movimento, além de alienar minorias na Sérvia (como os albaneses e croatas étnicos), e os marcar regionalmente como uma nova força potencialmente ameaçadora.

O aspecto criativo do protesto é fantástico, não apenas por representar uma espírito jovem mas especialmente por ajudar a manter o fôlego, e aumentar as esperanças. Piquetes de 24 horas, manifestações diárias, semanais e mensais podem ser cansativas. É impossível manter as pessoas unidas apenas com marchas e discursos políticos. Por isso, a organização interna dos participantes é um fenômeno bastante interessante. Há quadras de basquete improvisadas; cozinhas abertas onde as pessoas cozinham e comem juntas; partidas de xadrez; corais profissionais e amadores; equipes de cinegrafistas. Por exemplo, os estudantes da Universidade de Artes Dramáticas de Belgrado também estão gravando as manifestações; uma documentação valiosa para preservar a história do movimento, que servirá para futuras análises e reflexões.

Além disso, a escala do uso de tecnologia nestes protestos se distingue daqueles dos anos 90 e 2000, que derrubaram Slobodan Milošević, e dependiam de métodos mais convencionais de comunicação como o boca à boca, materiais impressos, ou a mídia controlada pelo estado. Apesar da mídia mainstream da Sérvia atualmente não estarem cobrindo as manifestações, os estudantes estão usando efetivamente todas as plataformas de redes sociais: Facebook, Instagram, Tik Tok, Signal, e mais. Isso importa, não só para a rápida difusão interna de informação, mas também porque alcança uma audiência internacional. Graças a tecnologias atuais e redes sociais, estudantes na Sérvia tem efetivamente mobilizado movimentos de solidariedade ao longo de toda Europa, como manifestações em solidariedade acontecendo em várias capitais e cidades europeias.

Eles chegaram a criar um website onde informações sobre manifestações e outras informações organizacionais importantes são atualizadas diariamente. O que chama atenção sobre as informações no site, é o senso de responsabilidade coletiva e solidariedade. Os estudantes estabeleceram regras que incluem limparem as ruas após os protestos, manter assembleias pacíficas, e reportar quaisquer comportamentos suspeitos ou a presença de armas para aqueles designados a garantirem a paz e segurança.

Entretanto, por mais que tudo isso seja impressionante, há um ponto negativo crucial: a falta de uma estratégia de longo prazo e um plano de se estender para além dos protestos atuais, no caso de um governo de transição ser apontado para monitorar um processo eleitoral livre e seguro (se é que isso é possível) entre outros possíveis cenários existentes. Se um plano não for desenvolvido rápida e cuidadosamente, arrisca-se criar um vácuo que pode ser preenchido pelas forças políticas reacionárias do país.

Gresa Hasa é Co-Fundador e Editor Chefe da Shota, uma revista feminista albanesa Ela é uma publicitária independente, regularmente contribuindo com comentários políticos para mídias albanesas, regionais e internacionais, com foco em políticas das Bálcãs, movimentos sociais, nacionalismo, e questões de gênero, Anteriormente, esteve engajada em movimentos de base na Albânia. Atualmente reside em Viena, Áustria, onde continua sua carreira acadêmica e profissional.

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