
Textos publicados originalmente na Pramen (01.26.2025) por Julius Gavroche
Nesse Domingo, 26 de Janeiro. Lukashenko vai apontar a si mesmo como presidente da República da Bielorrússia pela sétima vez. A incógnita é quantos por cento do dito apoio público vai estar com o ditador desta vez. Levando em conta a necessidade de criar uma imagem de uma ditadura estável, tanto o comparecimento quanto os votos para Lukashenko provavelmente quebrem recordes. E apesar do ódio ao regime continuar em alta, nós não devemos esperar por manifestações sérias a esta altura. A maioria dos que permanecem no país estão aguardando pela melhor hora de agirem, e fora do país a diáspora tem se esforçado imensamente para apoiar a resistência a invasão russa da Ucrânia.
O imperialismo russo têm unido muitos grupos na região contra o autoritarismo, mas também reduziu a relevância de Lukashenko na agenda política. A necessidade do colapso da ditadura do Kremlin é agora um fator chave na libertação da Bielorrússia e nós não cansaremos de repetir isso. Putin é o garantidor da preservação do regime de Minsk e mesmo os métodos mais desesperados dificilmente podem liberar a região caso a máquina do militarismo russo continue funcionando. Obviamente, muitos bielo-russos há muito perceberam isso, e a discussão é mais sobre como derrubar Putin com a relativa apatia da sociedade russa, com uma parte significante que apoia o projeto de restauração da grandeza do maior país do mundo.
Em toda essa história, mais de 30 anos do regime de Lukashenko é uma continuação lógica na constante escravização da Bielorrússia e outras regiões da antiga União Soviética por forças autoritárias. O colapso dos estados coloniais do século 20 tem um impacto na lógica dos grandes estados, mas não durou muito, e a atual agenda uma vez mais mostra a divisão das “pessoas humildes” entre forças globais. Ideias de liberdade e igualdade raramente são ouvidas no ambiente político, e em seu lugar temos a honra, poder, estabilidade, e segurança. Na ascensão do novo autoritarismo, movimentos fascistas estão florescendo por todo o mundo, forçando seu caminho em direção ao poder. Décadas de democracias liberais e políticas econômicas neoliberais não libertaram o mundo da praga fascista. Na realidade, nós vemos a Europa e os EUA gradualmente caindo no abismo em que vivemos por anos – promessas populistas vazias para a construção de um estado centralizado forte.
Nós não podemos mais nos distrair com esperanças de que a Bielorrússia será por Svetlana Tikhanovskaya [1], ou talvez pelo próprio Vyachorka[2] ou por umas centenas de combatentes Kalinovsky[3], a realidade é que vamos ter que salvarmos nós mesmos, sob o imenso peso da indiferença do Ocidente e do Oriente. A luta contra Lukashenko causou grande dano a nossa sociedade, assim como foi com a luta contra os sovietes e o império russo. Mas essa luta nos tornou capaz de resistir nas circunstâncias mais duras. Os assassinatos e o terror da ditadura não interromperam nosso desejo por liberdade. Milhares de prisioneiros em colônias e prisões do regime, não desistiram da luta, apesar de toda violência que o regime continua a usar contra eles. Novas gerações já cresceram, prontas para arriscar tudo em nome da libertação.
Muitos talvez se desesperem com o silêncio que acompanha esta eleição, mas não vamos nos iludir. No domingo, Lukashenko vai comemorar junto de pessoas que ele jamais poderá confiar. Olhando ao redor, ele vai beber à sua vitória, sabendo perfeitamente que sua vitória não significa absolutamente nada. No dia após a eleição, a sociedade bielo-russa vai continuar a resistir, organizando ações de sabotagem em infraestrutura crítica, apoiando prisioneiros, lutando em ambientes de trabalho e universitários – nosso desejo por liberdade é mais forte que qualquer repressão e que sonhos de tiranos de vastos impérios e regimes estáveis. Cedo ou tarde nossa luta vai nos libertar das correntes não apenas da ditadura, mas será capaz de mostrar ao mundo como pessoas comuns sem grandes recursos podem decidir seu próprio futuro independente de impérios.
Solidariedade internacional como a chave para a libertação total
Já se vão quatro anos e meio desde os dias em que estivemos ombro a ombro nas ruas das cidades, erguendo barricadas, arremessando pedras contra a polícia e formando laços em nossas comunitárias. Durante estes anos, nossas vidas mudaram dramaticamente: alguns foram forçados a deixar suas casas para sempre, outros sobreviveram a prisão, alguns em trincheiras, e alguns já não estão mais entre nós. A revolução de 2020 foi perdida taticamente, mas isso era estrategicamente necessário para que a sociedade bielo-russa chegasse a certas conclusões. Nos últimos anos, muitos bielo-russos têm refletido em seus erros, aprendido certas lições, é uma pena que eles tenham que aprender com seus próprios erros. Todas nossas lições são úteis, mas todas as vezes que aprendemos com nossos próprios erros, regredimos e, às vezes, regredimos tanto que todas as lições que aprendemos não somos capazes de remediar a situação. Mas isso não é motivo para desistirmos,
Nós teremos de reunir todas nossas forças e experiência se queremos livrar a Bielorrússia da ditadura. A situação pode parecer sem esperança e insuperável para nós, mas é quando as coisas estão muito ruins que surge a chance para uma última e desesperada luta, como a história do mundo já nos mostrou tantas vezes. Quando máquina aperta tanto, eventualmente algo se partirá, e o regime cometerá um erro fatal, do qual vamos tomar vantagem. A situação na região é mais instável do que em qualquer outro momento da história recente: a expansão imperialista russa na Ucrânia, a relutância do regime bielo-russo de entregar todo o poder ao Kremlin, os interesses imperialistas de Trump e dos Estado Unidos na região – tudo isso trás caos e confusão para a vida na região, mas é neste caos que surgem as janelas de oportunidade para populações oprimidas.
Este é o caso da Síria – uma ditadura totalitária até 2011 – onde, em meio ao caos da Primavera Árabe, formações como a Administração Autônoma do Norte e do Oeste da Síria e os Comitês de Coordenação Local (um projeto anarquista de redes de conselhos comunitários na área de Damasco) se tornaram possíveis. Agora, no próximo turno de escaladas na revolução Síria, após a queda da ditadura de Assad, resta saber se as forças jihadistas pró Turquia com seu fundamentalismo e nova ditadura serão capazes de se manter no poder, ou se as sementes da liberdade vão sobreviver a mais uma onda de terror e repressão.
Nós deveríamos aprender com a experiência de outras pessoas e as adotar para nivelar nossas chances contra o regime. Não podemos nos dar ao luxo de cairmos no mesmo erro que tantas pessoas antes de nós. Precisaremos de um nível de abertura e empatia para podermos refletir sobre a experiência de outros povos; para esse propósito, bielo-russos precisam se livrar de preconceitos e arrogâncias, que ainda observamos no contexto da crise humanitária na fronteira Polônia-Bielorrúsia. Nós precisamos entender que um temos muito em comum com curdos, sírios, afegãos, e palestinos, e que temos muito que aprender com eles. A solidariedade internacional vai nos ajudar a reclamar nossa terra e libertar as pessoas aprisionadas. Foi precisamente o sentimento de excepcionalismo que impediu bielo-russos de vencerem a revolução de 2020, pois muitas pessoas pensaram que táticas não violentas eram uma coisa bielo-russa que iria destruir o regime. A experiência de muitas revoluções não era, nem conhecida, nem do interesse dos bielo-russos. Uma vez mais devemos voltar à luta, mais preparados. Firmar relações internacionais, aprender com os que tem experiência – nós temos uma dura luta pela frente, e devemos vencer.