Relatos e registros em vídeo direto das ruas de Tbilisi
Publicado originalmente em 04.12.24.

Terça-Feira, 3 de Dezembro ficou marcada como a sexta noite consecutiva de confrontos entre a polícia e manifestantes antigoverno em Tbilisi, capital a Geórgia. Nós trazemos estes curto relato e registro em vídeo, uma cortesia des anarquistes georgianes. Os manifestantes estão respondendo a recente vitória do partido político fundado pelo bilionário Bidzina Ivanishivili, cuja riqueza equivale a mais de um quarto do produto interno bruto do país. Esse partido vem buscando uma agenda que emula o regime de Vladimir Putin, buscando consolidar poder enquanto dirige o ressentimento do público a bodes expiatórios; por exemplo, passando em Outubro uma legislação proibindo casamentos de pessoas do mesmo sexo, adoção por casais do mesmo sexo, cuidados de afirmação de gênero, e retratos positivos de pessoas LGBTQ+ na mídia.
Como a Armênia, e a Sérvia, a Geórgia se tornou um destino para russos fugindo dos recrutamentos que geram buchas de canhão que Putin joga em sua invasão à Ucrânia. Menos de um mês atrás, anarquistas russos em exílio na Geórgia relataram que a vitória do partido pró-Putin Sonho Georgiano nas eleições do Parlamento em 26 de Outubro levou o movimento de oposição a um impasse:
Parece que a oposição mainstream está em um beco sem saída. Eles não podem avançar para ações mais radicais; agem dentro dos moldes das democracias liberais, e o partido de situação não se importa com a resistência que continua dentro dos limites da lei, já que eles têm ao seu lado a força e recursos administrativos. A manifestação de 4 de Novembro foi bem desanimada, haviam bem menos pessoas do durante os protestos contra a “lei do agente estrangeiro”[1] (mais ainda haviam muitas pessoas). Em geral, o sentimento é que não há confiança nos partidos de oposição.
Ao longo da semana seguinte, entretanto, manifestantes adotaram táticas mais radicais, engajando em confrontos frontais com a polícia.
Apesar de haver anarquistas entre as dezenas de milhares de participantes nestes protestos, eles compõem uma pequena minoria. O sentimento comum conectando os participantes é a falta de confiança nos partidos políticos no geral, oposição ao domínio que o Sonho Georgiano tem sobre o poder, e hostilidade à Rússia, que dominou a Geórgia pela maior parte dos últimos dois séculos e a derrotou em uma guerra em 2008.
Enquanto alguns comentaristas se uniram aos políticos pró-Rússia, comprando os protestos a Geórgia aos protestos do Maidan, que levaram a Revolução Ucraniana em 2014, existem diferenças relevantes. Por exemplo, os autores do texto a seguir relatam não haver envolvimento direto de elementos nacionalistas ou fascistas nos protestos. Entretanto ainda é cedo para dizer se um horizonte revolucionário pode emergir para competir com o objetivo neoliberal de integrar a Geórgia no mercado europeu.
Mesmo que esse horizonte não surja, é significante que o movimento na Geórgia foi incentivado a mudar de simples manifestações a engajar em conflito direto. Como em 2019, quando a revolta se espalhou de Hong Kong ao Equador, do Chile a Calúnia como um pavio de fogos de artifício ao redor do globo, resistência participativa em uma parte do mundo geralmente prefigura ou inspira resistência em outros. As táticas que servem a manifestantes em uma luta geralmente acabam em outros lugares.
E os desafios que as pessoas da Geórgia enfrentam; os desmandos de bilionários, uma ataque reacionário as suas liberdades, uma oposição controlada por uma liderança liberal débil, e uma ausência de alternativas revolucionárias; são similares aos desafios que centena de milhares enfrentam nos Estados Unidos e ao redor de todo mundo.
Abaixo, a perspectiva de Tbilisi:

Contexto
O partido Sonho Georgiano está no poder desde 2013. Ele é liderado pelo oligarca Bidzina Ivanishvili, que fez sua fortuna na Rússia. Na última década, este partido tem avançado uma agenda pró-Rússia, lenta e inexoravelmente afastando o país do Ocidente. Este ano, Ivanishvili chegou ao ponto de declarar que a guerra entre a Geórgia e a Rússia, que aconteceu em 2008 foi iniciada pela Geórgia; ecoando um argumento central da propaganda russa. Nas eleições parlamentares de Outubro de 2024, o partido Sonho Georgiano venceu por uma margem significativa entre inúmeros casos de intimidação, suborno e fraude. Uns poucos protestos aconteceram depois disso, mas a energia dos cidadãos da Geórgia estava baixa. Quantos outros protestos pacíficos, ou de outros tipos, já haviam acontecido desde a ascensão do Sonho Georgiano sem nenhum resultado tangível?
A gota d’água foi, primeiro, a nomeação para presidente (que é decidia pelo partido que comanda o parlamento) de um jogador de futebol sem qualquer qualificação e com histórico de lealdade ao Sonho Georgiano e a Rússia; e segundo, a confirmação de que os diálogos sobre a inserção a União Europeia cessariam em 2028. Este segundo ponto era especialmente irônico, já que a propaganda do Sonho Georgiano exibia muitas imagens da União Europeia. O ultraje com relação a este segundo ponto, gerou a faísca que deu início aos protestos dos fogos de artifício.
Noite de Sexta-feira, 29 de Novembro
Dezenas de milhares se reuniram do lado de fora do Parlamento, no começo da manifestação. Era possível ouvir cantos de “Escravos! Escravos!” e batidas ritmadas nos portões de ferro que protegem as portas do parlamento. As 11pm, a tropa de choque foi enviada, disparando gás lacrimogênio. A polícia passou a fazer prisões; registros em vídeo mostram inúmeras agressões, assim como policiais empurrando cidadãos contra a barreira policial.
No geral, os manifestantes estavam despreparados para os confrontos da primeira noite. Alguns se precaveram levando máscaras de gás e proteção para os olhos, mas a maioria foi forçada a recuar. Os que vieram preparados se tornaram a primeira linha de ataque e persistiram por toda a noite; muitos, até o fim da tarde do outro dia; jogando ovos e disparando fogos de artifício para o céu.
Noite de Sábado, 30 de Novembro
Dessa vez, manifestantes apareceram com mais raiva e mais preparados. Os fogos de artifícios dos dias anteriores triplicaram em número. Já que o ano novo se aproximava, fogos de artifício estavam a venda em todo canto. Essa é uma longa tradição em Tbilisi, graças a falta de regulamentação com relação a quem pode comprar fogos de artifício. Todo ano novo, milhares de fogos acendem o céu. Tendo passado a Noite de Réveillon tanto nos EUA quanto em Tbilisi, os fogos de artifício em Tbilisi se compram com o tipo de demonstração que se vê no 4 de Julho das grandes cidades dos EUA.
Manifestantes começaram a mirar os fogos de artifício diretamente ao prédio do parlamento. Pessoas escalaram os muros para quebrar as janelas para que os fogos de artifícios pudessem ser jogados no interior do prédio, em meio a gritos ensurdecedores de comemoração de toda multidão. Os estrondos de fogos puderam ser ouvidos ao longo de toda noite.
Dessa vez, a polícia apareceu mais tarde, depois dos manifestantes erguerem várias barricadas, bloqueando as vias secundárias que levavam a avenida principal. Eu vi vários bancos de metal sendo arrancados de suas fundações e serem adicionados as barricadas. Fogos foram acesos, e as pessoas correram para as linhas de gente para arremessar “granadas” de fogos de artifícios contra a polícia.
Naquela noite, algum manifestante engenhoso montou um tipo de lançador automático de fogos de artifício que disparava incontáveis fogos através de algum tipo de tambor rotativo. Mirando diretamente na polícia, ele se esquivou dos canhões de água misturados com gás lacrimogênio. Através do Whatsapp e do Telegram, vieram chamados para que os manifestantes ajudassem a construírem barricadas e confrontassem a polícia diretamente.
Por volta das 2am, a polícia rompeu as barricadas e usou gás lacrimogênio, gerando uma fuga em massa. Manifestantes gritavam uns com os outros, para que não corressem muito rápido, e cuidarem um dos outros. Muitos recuaram, mas muitos permaneceram até o dia seguinte, fazendo mais barricadas, acendendo fogueiras, lançando fogos, e arremessando qualquer coisa que pusessem as mãos contra a policia que avançava.
Muitas pessoas foram espancadas e presas durante a noite de Sábado. A polícia agarrou tantos quanto pode, espancado-os, e os detendo. Os que foram espancados muito pesadamente, geralmente até o ponto de perderem a consciência, foram liberados, mas multados entre 2000 e 3000 lari [aproximadamente mil dólares]; levando uma pessoa que foi gravemente espancada a dizer para o meu primo, “Eles nos espancam até desmaiarmos e ainda nos multam; estamos sendo assaltados!”
Noite de Domingo, 01 de Novembro
Os que tinham ferimentos menores foram julgados no Domingo. Eles receberam conselhos legais inadequados, forçados a defenderem a si mesmos, e acusados de serem “intimidadores” que estariam instigando violência contra indivíduos da polícia. A previsão é que o amigo do meu primo fique na cadeia por sete dias.
Mesmo assim, no Domingo a noite, uma quantidade semelhante de pessoas tomou as ruas. Todas as táticas usadas antes se fortaleceram e os manifestantes trouxeram o que podiam para ajudar. Uma vez mais, barricadas foram erguidas, fogueiras acesas, fogos de artifício foram disparados, e objetos nas ruas foram desmontados para auxiliarem a luta. Minha irmã testemunhou uns poucos manifestantes desmontando os guarda-sóis de um restaurante. Quando o proprietário chegou, ele instruiu os manifestantes como desmontá-los da maneira mais segura.
Segunda-feira a Noite, 2 de Dezembro
Além da suspensão da candidatura a União Europeia, a Segunda-feira foi marcada pelo primeiro dia de implementação da nova lei anti-LGBTQ.
Segunda foi mais um impasse. No lugar do parlamento, o conflito aconteceu nas ruas. Havia uma linha de defesa formadas por robocops segurando seus escudos de plástico, e no lado oposto, nós tínhamos, nossos combatentes disparando fogos. Entretanto, a polícia usou uma quantia absurda de gás lacrimogênio. Você era capaz de sentir os efeitos há uma milha de distância. Eles também usaram balas de borracha. Isso estava acontecendo bem na ponta da rua. As pessoas na parte de trás seguiram fazendo barricadas e bloqueando entradas laterais. Haviam pessoas distribuindo soro, sanduíches água e óculos de proteção.
Georgianos geralmente não são organizados. Eles dependem da comunicação boca a boca e no local. No passado, durante manifestações, isso levou a muitas confusões e a propagação de desinformação, o que finalmente levou a desmobilização das manifestações. Dessa vez, entretanto, toas as pessoas pareciam concordar completamente: é hora de escalar. Eu não ouvi pedidos para conter as ações sobre o vago manto da “manifestação pacífica”. Na verdade, comemorações efusivas acompanhavam qualquer ação que ameaçasse as fundações do parlamento. Se as portas pudessem ser arrombadas, tenho certeza que nós teríamos invadido o lugar.
Em geral, o resultado dessas manifestações ainda em andamento permanece incerto. A mídia internacional tem reportado que participantes tem exigido por uma nova eleição, mas eu não acho que seja o caso. O tempo de ações diplomáticas parece ter passado. Se isso vai gerar uma revolução, ainda é incerto. Mas os protestos não parecem estar desacelerando.
Terça-feira à Noite, 3 de Dezembro
Não recebemos relatos da noite de terça-feira, apenas os seguintes vídeos.
[1] Uma lei exigindo o registro de organizações que recebem mais que 20% de seu financiamento de países estrangeiros. Acusando a lei de ser feita aos moldes da legislação russa usada para atacar oponentes do Presidente Vladimir Putin, grupos de oposição organizaram alguns dos maiores protestos na Geórgia desde a independência da Geórgia em 1991. Ainda assim, a lei foi promulgada em Junho de 2024.
[2] Junto disso, percebemos que alguns participantes das agitações em Tbilisi têm usado essa ferramenta para rastrear os movimentos de viaturas policiais e ambulâncias